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Náufrago - A alegoria do medo de mudar
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Náufrago – A alegoria do medo de mudar

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Náufrago – A alegoria do medo de mudar

Filme sugere reflexão sobre a necessidade de superação dos medos para uma vida mais plena e feliz

Luiz Garcia (*)

Imagine-se náufrago numa pequena ilha perdida do Oceano Pacífico, diante da remotíssima possibilidade de ser resgatado. Nenhum contato humano, nenhum vínculo com a civilização. Nada das facilidades do mundo moderno, só a certeza – crescendo a cada dia – de que todo o resto de sua vida estará confinado àquela porção de terra cercada de água e solidão por todos os lados. Esta é a história de Chuck Noland, personagem de uma ficção hollywoodiana que retratou, com sensibilidade, uma das necessidades primordiais do ser humano: a de viver em sociedade.

Com profundidade, o Livro dos Espíritos, em seu 7º capítulo, aborda essa lei natural, segundo a qual o homem instintivamente busca a relação social como forma de progredir. O drama do funcionário de uma empresa de correios norte-americana no filme “Náufrago”, vivido pelo ator Tom Hanks, película do já distante ano de 2001, ainda gera reflexões e lembra o quanto o homem hoje usufrui dos avanços acumulados pela sociedade e sugere uma reflexão importante: quanto valorizamos o conforto, o convívio social e o progresso alcançado até hoje?

Outros, menos que reconhecê-lo, renegam o contato com seus semelhantes e procuram o isolamento. Os Espíritos da Codificação deixam claro que se engana quem busca virtude na reclusão absoluta como forma de se afastar das tentações do mundo. “Com esse retraimento, evitando o mal, o homem cai em outro, pois esquece a lei de amor e caridade”, instruem os benfeitores. Para eles, “Deus não pode considerar agradável uma vida em que o homem se condena a não ser útil a ninguém”.

Engessado pelo medo

O filme também é uma alegoria de um dos mais incrustados medos humanos: o de mudar. Depois de ser o único sobrevivente de um acidente aéreo, Chuck, para manter-se “vivo”, teve de se habituar a uma dieta das mais rigorosas: água de coco e peixe cru. Depois de mais de quatro anos, Chuck cansou-se de apenas estar vivo, pois a vida, sem sua noiva Kelly e sem seu emprego, perdera o sentido. Mudar de vida, porém, lhe custava um duro esforço: abdicar da segurança de uma ilha que, apesar de agreste, garantia-lhe a subsistência.

Neste momento, o náufrago vivencia um dilema crucial: acomodar-se na precária segurança daquela ilha, ou aventurar-se numa arriscada viagem de retorno à civilização, em busca de uma felicidade perdida e antes desprezada.  A dúvida de Chuck é a mesma dúvida que contamina o homem que se deixa imobilizar pelo medo de mudar, de trocar a segurança de sua pequena “ilha” por um horizonte de novas esperanças.

É um comportamento típico de depressivos, pessimistas e similares, que desenvolvem a doença mais difícil de curar: o derrotismo. Uma vez mais, é a lei do menor esforço. Adaptar-se à precariedade de uma situação requer menos trabalho que lidar com novas realidades. Acostumar-se às dores parece ser mais fácil que remexer suas causas e fazer esforço para curar as mazelas.

Além do medo e do comodismo, a dificuldade de mudar está associada à falta de fé na providência de Deus. Quem tem receio do desconhecido, é porque se percebe deserdado, longe da mão protetora do Criador. Tem uma fé capenga, que não lhe serve de força para os desafios da vida. Tampouco confia nas palavras de Jesus, quando disse “buscai e achareis”, “ajuda-te e o céu te ajudará”, ao que Allan Kardec, em o Evangelho Segundo o Espiritismo, acrescenta que o princípio da lei do progresso é o suor, a lei do trabalho.

Mas da mesma forma que Chuck Noland foi tomando consciência de que uma vida só ganha sentido na relação com outras vidas, o homem preso em sua própria ilha de amargura, raiva e egoísmo acaba se cansando de tanta solidão. É a fatalidade do progresso. Depois de renunciar tanto tempo as verdadeiras alegrias do espírito, o homem descobre que só há paz e felicidade num território além dos seus medos, do seu egocentrismo, de sua preguiça.

A exemplo do náufrago, o ser humano precisa vestir coragem em direção ao que lhe é desconhecido, pois lá estará a luz que pressente responder a suas ânsias mais íntimas. Num mundo de tantas facilidades com as quais nos habituamos, a vida superior nos desafia a escolher um caminho de sacrifícios, de opção consciente pelo que nos convém fazer, ter e desejar. Caso contrário, o homem está destinado a naufragar e a viver numa “ilha” onde aprenderá, constrangido pela solidão, a fundamental necessidade de amar.

(*) Luiz Garcia é jornalista e redigiu o texto acima para o Espaço Espírita no ano de 2002.

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